Uma poesia para destacar a união de todos, na visão de João Cabral de Melo Neto

Mesmo sem querer fala em verso Quem fala... João Cabral de Melo NetoPaulo Peres
Poemas & Canções

O diplomata e poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto (1920-1999) utilizou em sua obra poética desde a tendência surrealista até a poesia popular, porém caracterizada pelo rigor estético, com poemas avessos a confessionalismos e marcados pelo uso de rimas toantes, inaugurando, assim, uma nova forma de fazer poesia no Brasil. O poema “Tecendo a Manhã” significa o sonho do poeta com um futuro construído por todos, livremente, para todos, isento de “armações”, maracutaias e intrigas. Um mundo verdadeiramente socialista?

TECENDO A MANHÃ
João Cabral de Melo Neto

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro: de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma tela tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão  

4 thoughts on “Uma poesia para destacar a união de todos, na visão de João Cabral de Melo Neto

  1. Haja galo pra fazer essa manhã do poeta.O que ele queria afinal dizer? Eis uma manhã mais gostosa: uma que a gente ainda de pijamas vai para a varanda, aprecia a natureza acordar:

    A brisa húmida soprava fria, fraca,
    E a neblina espessa quase tudo cobria;
    No chão, pássaros saltitantes petiscavam,
    E o sol, no horizonte, lentamente subia…

    No pasto, o gado avançava lento
    De toiça em toiça, em harmonia;
    No galinheiro, o galo vermelho,
    Nervoso, atrás das galinhas corria.

    Era uma manhã perfeita para a indolência
    E um bom cafezinho quente.
    Pena que o nevoeiro foi logo embora,
    E o sol nos trouxe um dia ardente!

  2. -O teu lago se assemelha
    Um grande céu que espelha
    Um passado ainda presente
    Refratado na face da água
    Pelos raios do sol luzente.

    -Sol desponta no nascente
    Qual uma esfera incandescente
    Do campo o orvalho cristalino
    É sugado pro éter distante
    Para à noite voltar sereno fino.

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