Adotar taxas negativas de juros é a maior conquista da equipe econômica

Ainda mais difícil explicar nossas altíssimas taxas de juros ...

Charge do Glauco (Arquivo Google)

Carlos Newton

Na Editora Bloch, a revista Fatos & Fotos tinha idas e vindas. Sua fase mais espetacular ocorreu quando foi dirigida em conjunto por Raul Giudicelli e Carlos Imperial. Nessa época, a revista vendeu como nunca. Jornalista, filósofo e poeta, Giudicelli tinha uma cultura gigantesca, enquanto Imperial conseguia dar um tom de rebeldia e loucura para popularizar a publicação.

Acontece que Giudicelli estava bebendo demais. Trabalhava com uma garrafa de uísque na gaveta, e Imperial não tinha a menor responsabilidade. Criou uma seção chamada “Desculpe, foi engano” e numa edição esculhambava alguma pessoa famosa, para na semana seguinte fazer um artigo pedindo desculpas,

VAMOS AO CINEMA –O sucesso era estrondoso e a equipe pirou. Numa tarde, Adolpho Bloch entrou na redação e não tinha ninguém, nem mesmo o contínuo. Foi na sala ao lado e perguntou o que havia ocorrido e descobriu que a equipe inteira tinha ido ao cinema.

Na mesma hora, Adolpho demitiu todo mundo. Raul Giudicelli foi fazer reabilitação e nunca mais bebeu, enquanto Imperial se candidatou e foi eleito vereador pelo MDB.

Uma das normas da revista naquela época me marcou até hoje – “Nenhuma crítica é válida, se não houver liberdade para elogiar”. Sempre penso nisso quando tenho de enaltecer alguma virtude de autoridades que costumo criticar. É o caso agora de Paulo Guedes.

A equipe econômica deve ser aplaudida de pé, porque o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu, por unanimidade, reduzir a taxa básica de juros (Selic) para 2% ao ano. Com isso, o Brasil subiu uma posição no ranking das taxas reais (descontada a inflação), com juros negativos de 0,71% ao ano, ficando na 26ª colocação entre os 40 países mais importantes.

JUROS NEGATIVOS – É preciso entender que os juros negativos significam a falência do capitalismo à brasileira, no qual eram conseguidos altos lucros sem risco, apenas com a aplicação do dinheiro. Ou seja, era o capital pelo capital, no fenômeno do “rentismo”, assim denominado por Karl Marc e Friedrich Engels para definir a última etapa do capitalismo sem produção e sem risco, que não gera empregos nem distribui renda.

No ano passado, com o início da queda dos juros, os rentistas correram para a Bolsa de Valores, que subia estratosfericamente, desafiando a gravidade e criando uma grande bolha que acabou estourando, porque as ações começaram a valer muito mais do que as empresas, uma situação absolutamente artificial.

Com o fim do sonho da Bolsa, migraram para dólar, que passou a subir enganosamente no Brasil e se desvalorizar no exterior.  E agora chegamos à última fase, com nova valorização dos imóveis e do ouro.

SEM ALTERNATIVA – A inflação projetada para os próximos 12 meses é de 3,14%. Portanto, os juros negativos de 0,71% são bastante significativos para o Brasil.

Conforme Marx e Engels previram há quase 200 anos, a farra dos rentistas chegou ao fim e agora só lhes resta voltar ao capitalismo de verdade – investir o dinheiro em atividades produtivas, que gerem empregos e distribuam renda.

Em suma, esse mérito dos juros negativos ninguém tira de Paulo Guedes e de Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central. Mas a estratégia vai parar por aqui, Os membros do Copom (Comitê de Política Monetária) já avisaram que agora a meta é evitar a volta da inflação.

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P.S.Saudades de Giudicelli, que depois voltou a trabalhar na Manchete, e de Imperial, que casou com uma garota novinha, ainda cursava o ginasial. Eu estava no apartamento deles, em Copacabana, quando ela entrou, usando uniforme do colégio, e Imperial me avisou: “Não aceite nada que ela lhe ofereça. Ela gosta de pegadinhas e anda com umas balas que deixam a boca das pessoas cor de violeta…”. Outro que casou com uma colegial foi Lima Duarte. Eu estava tomando um uísque na casa dele, na Urca, quando ela chegou do colégio. Chamava-se Mara. O ator ficou 18 anos casado com ela e tiveram três filhos. Mas isso é outra história. (C.N.).

12 thoughts on “Adotar taxas negativas de juros é a maior conquista da equipe econômica

  1. A manutenção dos juros baixos só é possível porque a demanda está baixa. Além disso, quase todos os países do mundo estão adotando essa prática.

    Por falar em economia, sempre fiquei curioso do porquê a Bielorrússia mantém o mesmo presidente há vários anos. Eis um link para quem deseja saber: https://portaldisparada.com.br/economia-e-subdesenvolvimento/sucesso-lukashenko-bielorrussia/?utm_medium=disparada&utm_source=Push&utm_campaign=2020

  2. Confesso que errei ao apostar em aumento do Juros. Eu, como discípulo da Economia Livre (Freiwirtschaft) de Gesell fico feliz. Somente fazendo umas ressalvas a este progresso: Li na Suno Research que o prazo médio dos títulos vem se reduzindo, ou seja, a conquista do juros baixo exige renovação contínua. Este prazo médio está em 3,87 anos. Dentro deste prazo, 50% da dívida (ou seja, ~3 trilhões de reais, +-40% do PIB, mais que 100% da arrecadação pública de impostos) terá que ser renegociado. Isso é ruim porque é arriscado, e os novos papéis vencem mais rápido que os antigos, mas é bom porque troca logo os títulos antigos (juros alto) por títulos novos. De fato, o estoque (onde se misturam todos os títulos) tem sido remunerado à média de 9,04% nos últimos 12 meses, ainda muito acima da inflação. Isso quer dizer que ainda tem muito rentista com estoque velho de títulos bons. Só com o vencimento destes é que o governo passará a gastar menos com a dívida pública. Em resumo: A gestão do juros tem 4 anos para dar certo ou errado, quando tiver renegociado 50% dos títulos.
    Outra ressalva é que ainda hoje é possível ver no tesouro direto a existência dos títulos IPCA+, que fornecem hoje rendimento bruto de inflação + 3,66% ao ano e vencimento em 2035 (líquido de aproximadamente 2,5% após descontados IR com inflação anual de 3,5%). É menos que o histórico de inflação+5%, mas ainda positivo (com risco de ficar negativo somente se a inflação subir para acima de 20% ao ano, ou se o índice IPCA for manipulado da mesma ordem de grandeza do bônus).

  3. Onde lê-se: Li na Suno Research que o prazo médio dos títulos se reduzindo (…)

    Leia-se: Li na Suno Research que o prazo médio dos títulos *vem* se reduzindo (…)

  4. A baixa dos juros no Brasil tem muito a ver com a baixa da inflação. Infelizmente, a baixa atual da inflação tem muitíssimo a ver com a queda de demanda causada pela recessão na qual estamos mergulhados e que está se acentuando violentamente, como no mundo inteiro, pelos efeitos da pandemia do COVID19. Então não sei se devemos felicitar alguém por ela…

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